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12/05/2014 - Uma boa notícia
Porém, nem bem a informação foi divulgada e o mercado já apresentava sinais de que se tratava mais de um voo de galinha do que uma recuperação consistente dos preços.

No espaço de um mês, o cenário mudou: os preços internacionais caíram cerca de US$ 1.000/tonelada e o câmbio voltou de R$ 2,40 para R$ 2,20; a oferta no Sul do país parece vir com mais força do que no ano passado; o clima no Centro-Oeste/Sudeste melhorou, contribuindo para que a possível queda de oferta não viesse com a intensidade esperada e, fundamentalmente, a indústria não conseguiu, até agora, repassar os preços. 

O resultado já foi sentido pelo leite spot na segunda quinzena de abril e, mantendo-se esse cenário, a queda chegará ao produtor de forma mais evidente do que até agora chegou. Isso em um momento bem pouco usual para esse fenômeno. 

Se confirmado, será um ano de altos e baixos, pois alguns fundamentos permanecem válidos, mesmo diante da realidade do momento. A produção de volumoso no Centro-Oeste e no Sudeste foi afetada no verão e, apesar da safrinha estar em geral transcorrendo muito bem, foram inúmeras as informações reportadas sobre perda de quantidade e qualidade na produção de silagem, cuja conta virá mais tarde. Além disso, há tradicionalmente redução dos volumes de produção nesta época do ano que, somada a uma eventual queda de preços na boca da entressafra e arroba bovina valorizada, poderá resultar em novo estímulo para recuperação de preços no início do segundo semestre. No panorama externo, após seguidas quedas fortes, os valores parecem ter estacionado pouco abaixo dos US$ 4.000/tonelada, um valor que, se não viabiliza as exportações, também não estimula grandes importações.

Mas o intuito deste artigo não é falar sobre a conjuntura de curto prazo, mas sim procurar analisar o cenário sob o âmbito mais amplo de mercado. Nesse sentido, o mês passado nos trouxe uma notícia interessante e que, talvez pelas incertezas do mercado, não tenha tido a repercussão que merecia.

Trata-se da criação da entidade Viva Lácteos, que reúne inicialmente as principais indústrias de lácteos do país (veja aqui a notícia e comentários dos leitores). Mais uma entidade setorial, muitos irão dizer. Outros, ainda mais céticos, irão ponderar que tal iniciativa aumentará o poder de barganha da indústria junto ao produtor. (Aqui, um parêntesis: cabe ao produtor reforçar também suas entidades de classe!).

Vejo, porém, com bons olhos a iniciativa, em que pese o fato de que o trabalho está apenas começando. Apesar das várias entidades existentes (em grande parte representando produtos específicos quando a maioria dos grandes industriais tem um portfólio amplo), faltava uma entidade que, de fato, falasse pela indústria. Mais do que isso, uma entidade que pudesse liderar questões como a criação da visão de longo prazo do setor. Onde queremos estar daqui a, digamos, 15 anos, e o que é passível de influência para atingir esse objetivo? Em outras palavras, que caminhos podemos escolher para criarmos nosso futuro?
 
Não é uma questão menor, ainda que questões de longo prazo costumem passar ao largo das discussões setoriais. Nos últimos 10 anos, surfamos uma onda de prosperidade criada por diversos fatores simultâneos: expansão dos programas de aumento de garantia de renda no Brasil; forte aumento do salário mínimo; economias dos países desenvolvidos em crise, favorecendo os emergentes; e crescimento populacional interno. De 2000 até 2013, estimamos que o mercado lácteo, em volume convertido para litros de leite, tenha crescido 62% ou cerca de 13 bilhões de litros – uma enormidade. 

Há vários indícios de que a forte onda surfada já tenha perdido vigor e, para frente, a tendência é de um ambiente de negócios mais desafiador por vários motivos:

a) A população crescerá cada vez menos. No início dos anos 2000, crescíamos a uma taxa de 1,4% ao ano, o que nos fez pular de 173 milhões de habitantes para os mais de 200 milhões atualmente. Hoje, o crescimento é de 0,8% ao ano e, em 2024, a previsão do crescimento é de 0,6% ao ano. Nos 10 anos anteriores, adicionamos 20 milhões de consumidores; nos próximos 10, serão 14, 5 milhões. 

b) Nosso consumo per capita já não é tão baixo. Pulamos, em 13 anos, de 122 kg de leite/pessoa para 171 kg. Cada brasileiro consome hoje quase 50 kg a mais de leite por ano (na forma fluida e de derivados) do que consumia no ano 2000. É um salto muito grande. Ainda que exista espaço para novos crescimentos, não temos mais 13 milhões de famílias para entrar no Bolsa-Família. A tendência é que o crescimento per capita seja menor nos próximos 10 anos, não alcançando mais os 3,4% ao ano dos últimos 6 anos. 

c) O consumidor será cada vez mais exigente. Questões que têm sido recorrentes como fraudes e produtos contaminados serão cada vez mais prejudiciais ao mercado, demandando ações importantes do setor público e também do privado para que o joio seja sempre rapidamente separado do trigo (e gradativamente eliminado do sistema), e que o mínimo que devemos fazer, que é produzir um produto isento de contaminantes, seja cada vez mais a realidade. Porém, a exigência do consumidor não se limita à questão da qualidade, mas estende-se à necessidade de desenvolvimento de novos produtos com base láctea que atendam aos diversos nichos de mercado, cada vez mais sofisticados. De um lado, se a população cresce menos, de outro surgem oportunidades interessantes de agregação de valor, que devem ser buscadas pelas empresas. Há, porém, questões relevantes de regulamentação nutricional junto a órgãos como a ANVISA, nas quais uma entidade dessa natureza tem a credencial de atuar, sem falar em impulsos à pesquisa e desenvolvimento e o próprio marketing institucional, esquecido enquanto o consumo crescia vigorosamente.

d) A complexidade do ambiente de negócios tende a ser maior. Pressões ambientais, bem-estar animal, saúde, entre outros itens, estarão cada vez mais na pauta dos setores de produção animal, demandando ações de coordenação por parte das indústrias uma vez que são elas quem se expõem ao consumidor. De outro lado, o grande varejo está cada vez mais concentrado, com 4 grupos internacionais (Pão-de-açúcar, Carrefour, Walmart e Cencosud) tendo mais de 50% das vendas de alimentos, gerando um ambiente desafiador para o elo processador. 

e) A competição será mais global. A União Europeia removerá as cotas de produção em 2015, seguindo um planejamento feito há vários anos. Os gastos com subsídios vêm diminuindo: hoje, a UE gasta percentualmente pouco mais da metade do que gastava de seu orçamento anual com subsídios agrícolas há 15 anos e o montante vem caindo em valores absolutos. A Farm Bill americana também veio bem mais liberal. O Mercosul alinha um acordo comercial com a Europa. Tudo isso sugere que teremos um mercado mais aberto no futuro, demandando aumento da competitividade. Nesse sentido, provavelmente seremos mais cobrados em relação a nossas políticas comerciais e é possível que estejamos mais expostos ao mercado internacional do que hoje. Teremos que decidir, em algum momento, se nosso principal intuito é resguardar o mercado interno ou criar as bases para a competitividade internacional, onde residirá sem dúvida alguma a maior possibilidade de crescimento do mercado.

Tudo somado, ainda que existam significativas oportunidades, tanto no ambiente interno quanto externo, tudo indica que o ambiente será mais desafiador do que até então fora. Esse ambiente exigirá representação setorial forte e unificada para lidar com estas questões, bem como para melhor coordenar a cadeia do leite – não se espera que essa iniciativa deva partir do produtor, muito mais fragmentado e que não transaciona com o varejo e nem dialoga diretamente com o consumidor. Cabe à indústria essa missão, sem dúvida trazendo o produtor para junto das discussões.
A missão não é fácil, mas como escreveu o poeta Horácio, “o começo é metade da obra”, ainda mais em se tratando de reunir concorrentes do dia-a-dia, muitas vezes pressionados pelos resultados de curto prazo, para começar a criar a agenda futura. 
 
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